

A polêmica envolvendo possíveis cancelamentos de shows de artistas sertanejos no Nordeste, após manifestações de apoio político a Flávio Bolsonaro, traz à tona uma discussão que ultrapassa os palcos e alcança os terrenos da democracia, da liberdade de expressão e da utilização dos recursos públicos.
É natural que artistas tenham suas preferências políticas, assim como qualquer cidadão brasileiro. O problema começa quando essas manifestações passam a interferir nas relações profissionais, especialmente nas contratações realizadas por prefeituras e governos para festas populares.
Por um lado, gestores públicos precisam considerar o interesse coletivo, a receptividade do público e a responsabilidade na aplicação do dinheiro dos contribuintes. Por outro, a preferência partidária de um cantor, isoladamente, não deveria constituir critério para sua contratação ou exclusão de eventos oficiais.
Há ainda uma questão econômica que merece atenção. O Nordeste representa um mercado importante para a música sertaneja, movimentando cachês milionários, empresas produtoras, profissionais de eventos, comerciantes e trabalhadores que dependem diretamente dessas apresentações.
Os episódios mencionados em Recife e Fortaleza, envolvendo a dupla Jorge & Mateus, precisam ter suas circunstâncias e motivações devidamente esclarecidas antes de serem apresentados como casos comprovados de retaliação política.
Afinal, uma coisa é cancelar uma apresentação por razões administrativas, financeiras ou contratuais. Outra, bastante diferente, é utilizar a máquina pública para premiar ou punir artistas em razão de suas convicções ideológicas.
A pergunta que fica é: estamos diante de decisões legítimas de gestão cultural ou de uma perigosa mistura entre preferências partidárias e administração pública?
Em uma democracia, essa distinção merece ser examinada com seriedade, transparência e respeito ao pluralismo político. Afinal, o dinheiro público pertence à sociedade, não aos partidos, aos governantes ou aos artistas.








