

Hoje a Saudade Brega viaja direto para o coração do Maranhão, para contar a história de um homem que nunca foi à escola, mas ensinou o Brasil a amar. Um lavrador que virou pop star, um analfabeto que virou poeta. Hoje vamos falar da lenda, do Michael Jackson do Brega, do maior músico do Maranhão: Raimundo Soldado.
Se você já dançou agarradinho ao som de Não Tem Jeito Que Dê Jeito, prepare o coração, porque a história dele é de arrepiar.
O MENINO DA ALDEIA DOS PRETOS QUE NÃO SABIA LER, MAS SABIA CANTAR
Raimundo Teles Carvalho, o nosso Raimundo Soldado, nasceu no dia 31 de agosto de 1946, no povoado de Aldeia dos Pretos, hoje conhecido como Ponta da Linha, no município de Santa Inês, no Maranhão.
Ele veio de uma família muito humilde de agricultores. A vida era na roça, de sol a sol. Raimundo nunca frequentou a escola, era analfabeto e músico totalmente autodidata. Ele não sabia escrever o próprio nome, mas sabia escrever no coração do povo. Enquanto muitos aprendiam a ler nos livros, ele aprendia a ler o sentimento do povo nordestino.
POR QUE SOLDADO?
Muita gente pensa que o apelido vem de valentia, mas vem de farda. Ele ficou conhecido como Raimundo Soldado porque serviu ao Exército Brasileiro, seguindo os passos de seu pai e de seus irmãos. Servir ao exército era motivo de orgulho na família. E o nome pegou. Raimundo Soldado. Forte, respeitado, um nome que já chegava chegando nas rádios.
O COMEÇO COM O GRUPO DE OURO
A carreira musical começou à frente do Conjunto Grupo de Ouro, onde ele já mostrava que não era só mais um cantor de forró. Ele tinha algo diferente.
Em 1980, pela grande gravadora EMI Copacabana, lançou seu primeiro LP, intitulado Abraçando Você. E foi uma explosão que ninguém esperava. O disco vendeu mais de 100 mil cópias e recebeu disco de ouro logo de cara, um feito gigantesco para um artista nordestino na época.
Esse primeiro disco já trouxe três pancadas que viraram hinos nas casas de forró e nos programas de rádio de todo o Nordeste:
Abraçando Você
Não Tem Jeito Que Dê Jeito
Você Gosta de Mim
De repente, aquele lavrador de Santa Inês estava em todas as paradas.
O ESTILO QUE NINGUÉM TINHA
O que fazia Raimundo Soldado ser tão diferente? Ele não fazia só forró, não fazia só brega. Ele fez uma fusão que ninguém tinha coragem de fazer. Ele pegou a música nordestina raiz e misturou com a música pop que tocava nas rádios, usando arranjos comuns nas músicas da Jovem Guarda, aquela guitarra jovem, aquele órgão, e misturou tudo com sons de origem na musicalidade nordestina.
Suas músicas tinham inicialmente uma temática romântica, aquele brega apaixonado que a gente ama, mas com um tempero único que misturava:
O pop vigente na época
O carimbó, ritmo típico do Pará e Maranhão
O forró nordestino
O baião
Era ao mesmo tempo moderno e raiz, chique e popular. Era música para dançar coladinho e para sofrer com um copo na mão. Por isso ele virou o Pop Star do Nordeste.
UMA COLEÇÃO DE SUCESSOS QUE NÃO ACABA MAIS
Ao longo de sua carreira, Raimundo Soldado gravou uma quantidade impressionante de sucessos que até hoje são lembrados e tocados nas festas do interior. É impossível falar de brega maranhense sem citar essas modas:
Não Tem Jeito Que Dê Jeito
Você Gosta de Mim
Menina Linda
Sanfona Branca
Fiquei Tão Triste, em parceria com Zequinha
Mulher Orgulhosa
Conquistando o Mundo
Minha Garota
Malena
Esqueça
Lambada Nº 4
Forró da Prainha
Forró no Piauí
Eu Quero Você
Vontade Louca
Cada música era uma história de amor, de ciúme, de saudade, contada com aquela voz rouca e sofrida que só ele tinha.

O BREGA QUE FOI PARAR EM HOLLYWOOD
E se você pensa que Raimundo Soldado só fez sucesso no Maranhão, se engana muito. Sua música atravessou fronteiras.
Sua obra prima, Não Tem Jeito Que Dê Jeito, alcançou um reconhecimento além do Brasil. Ela foi incluída na trilha sonora do filme At Play in the Fields of the Lord, Brincando nos Campos do Senhor, do renomado diretor Héctor Babenco, em 1991, um filme internacional com atores de Hollywood.
Ela também esteve no documentário Dim, de Nirton Venancio, em 2007, e foi regravada pelo cantor cearense Falcão em 1995, no disco A Besteira é a Base da Sabedoria, mostrando que até os ícones do brega mais escrachado reverenciavam Raimundo Soldado.
O lavrador analfabeto de Aldeia dos Pretos teve sua música em filme de Hollywood. Isso é grande demais.
A DISCOGRAFIA DE UM GIGANTE
Raimundo Soldado lançou 6 discos de vinil e diversos CDs pela gravadora Copacabana EMI, deixando uma obra eterna:
1980 – Abraçando Você – EMI – O disco de ouro que começou tudo
1981 – Conquistando o Mundo – EMI
1983 – Raimundo Soldado – EMI
1987 – Raimundo Soldado – EMI
2000 – Raízes do Nordeste – EMI
2000 – Minha Santa Inês – Copacabana – Uma homenagem à sua terra
2000 – Só as Antigas – Copacabana – Com versões modernas de seus primeiros temas, para a nova geração conhecer
O HOMEM DE MUITOS AMORES
Raimundo Soldado era conhecido por sua vida pessoal agitada, intensa, como suas músicas. Segundo relatos, teve vários casamentos e registrou mais de 11 filhos ao longo da vida. Era um homem apaixonado, que vivia como cantava, com o coração sempre aberto e sempre sofrendo por amor. Era o verdadeiro brega raiz, que vivia o que cantava.
A DESPEDIDA REPENTINA
No dia 17 de setembro de 2001, o Maranhão e o Brasil perderam sua estrela. Raimundo Soldado faleceu aos 55 anos de idade, na cidade de Timon, no Maranhão, vítima de meningite.
Segundo os relatos da época, tudo foi muito rápido. Ele teve uma febre repentina enquanto tomava banho, foi levado às pressas para o hospital, diagnosticado com meningite, mas não resistiu. Partiu rápido, como um raio, deixando uma saudade imensa.
O LEGADO DO MICHAEL JACKSON DO BREGA
Hoje, mais de 20 anos depois de sua partida, Raimundo Soldado é considerado por unanimidade:
O maior músico do Maranhão
O Michael Jackson do Brega
O Pop Star do Nordeste
Uma referência absoluta do brega raiz e da música apaixonada do Nordeste
Sua música continua sendo relembrada, tocada nas radiolas de reggae e brega, regravada por artistas de forró e brega, e cantada pelo povo que nunca esqueceu.
Raimundo Soldado provou que não precisa saber ler e escrever para escrever a história. Ele, que nunca foi à escola, deu aula de como fazer música popular que atravessa o tempo.
Que sua sanfona branca nunca se cale.




