
Políticos que fizeram parte da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) dizem que a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já era esperada antes mesmo da prorrogação do horário de votação neste domingo (25/10). Para eles, o resultado se deve ao excesso de confiança e a falhas da campanha.
Flávio não reconheceu a vitória de Lula e atribuiu a contestação à decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de estender a votação até as 19h. Segundo ele, a medida criou desigualdade entre eleitores de diferentes estados.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, afirmou, no entanto, que a extensão do horário não prejudicou a apuração. Ele relatou dificuldades técnicas, mas disse que a equipe conseguiu resolvê-las. “Volto a dizer: não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial”, afirmou.
Indicado ao STF pelo pai de Flávio Bolsonaro, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ministro confirmou a vitória de Lula e disse que telefonou aos dois candidatos para informar o resultado.
A contestação anunciada pelo senador não alterou a avaliação de aliados que já apontavam problemas na campanha. Algumas lideranças do Centrão previam a virada de Lula nas últimas semanas e criticavam Flávio por discutir a estrutura do governo antes de assegurar a vitória.
Segundo esses relatos, o candidato conversava reservadamente sobre a distribuição de ministérios e fazia promessas a empresários. A crítica era que estava de “salto alto”, pensando no governo que pretendia montar quando ainda precisava conquistar votos para chegar ao Planalto.
Aliados chegaram a comparar sua postura à de Fernando Henrique Cardoso (FHC), que foi fotografado na cadeira de prefeito de São Paulo antes da eleição de 1985 e acabou derrotado por Jânio Quadros. A lembrança era uma crítica à confiança antecipada na vitória.
Na avaliação desses interlocutores, Flávio teve um segundo turno morno e deixou a iniciativa com o adversário. Enquanto Lula percorria as ruas e ganhava repercussão espontânea nas redes sociais, o senador se concentrava em responder aos ataques do petista e em negociações de bastidor.
NIKOLAS E MARÇAL SÃO CRITICADOS
A tentativa de repetir fórmulas usadas pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e pelo influenciador Pablo Marçal também foi alvo de críticas. Pessoas que acompanharam a apuração ao lado de Flávio dizem que ele pareceu pouco autêntico ao adotar o estilo de campanha dos dois.
Parte delas responsabiliza Nikolas e Marçal pelo desempenho abaixo do esperado no segundo turno. As críticas também se estendem à imagem do próprio candidato.
Uma pessoa que trabalhou com Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) o descreve como o integrante mais “enrolado” da família e avalia que o acúmulo de investigações dificultou a conquista de eleitores que ainda tinham dúvidas sobre sua lisura.
Durante a disputa, o senador enfrentou investigações sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, e suspeitas de lavagem de dinheiro ligadas à sua relação com o advogado Willer Tomaz. Flávio nega irregularidades.
A eleição terminou com uma reversão inédita desde a redemocratização: pela primeira vez, quem liderou o primeiro turno perdeu a disputa pela Presidência. Em 4 de outubro, Flávio abriu uma vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos sobre Lula e encerrou o segundo turno com mais de 4,4 milhões de votos a menos.
Caciques partidários também dizem que o “questionamento de Flávio não faz sentido” porque Lula recebeu milhões de votos a mais que o senador, ampliando substancialmente sua votação no segundo turno.
O presidente teve um crescimento de cerca de 10,4 milhões de votos entre as duas etapas, quase o triplo dos 3,7 milhões obtidos pelo senador. Segundo os dados do TSE, Lula conquistou 64,2 milhões de votos, ou 51,79% dos válidos, contra 59,8 milhões de Flávio, com 48,21%.
LULA CRESCEU QUASE O TRIPLO DE FLÁVIO ENTRE OS TURNOS
- Em São Paulo, embora tenha sido derrotado, o petista ganhou 2,6 milhões de votos, enquanto o adversário somou 1,2 milhão.
- Em Minas Gerais, Lula virou a liderança de Flávio e terminou com vantagem de 109 mil votos.
- No Rio de Janeiro, base eleitoral dos Bolsonaro, o presidente acrescentou 872 mil votos, contra 202 mil do senador.
- No Nordeste, Lula aumentou sua votação em quase 3 milhões de votos. Flávio somou cerca de 398 mil.
Aliados também atribuem parte da virada ao aumento do comparecimento às urnas. Segundo o balanço apresentado por Nunes Marques, a abstenção recuou de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo. Na avaliação desses interlocutores, a mobilização de eleitores favoreceu Lula.
O resultado representou para a família Bolsonaro a segunda derrota consecutiva para Lula, desta vez com uma diferença de votos mais de duas vezes superior à registrada contra Jair Bolsonaro (PL) em 2022. Flávio deixará o Senado em 31 de janeiro de 2027, sem outro mandato.




