SUPOSTA VOLTA DE TASSO E CIRO AO PODER, PODERÁ RESSURGIR O MOVIMENTO PRÓ ´´ESTADO DO CARIRI?´´

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MARCOS PEIXOTO

Sempre fui atento a um fato bastante interessante que, em diferentes momentos da nossa história, povoou os ideais de nossa brava gente caririense. Refiro-me à criação do Estado do Cariri, ou seja, à possibilidade de nossa região transformar-se em uma unidade da Federação.

Pode parecer uma ideia distante para as novas gerações, mas essa discussão tem raízes históricas e, vez por outra, foi abraçada por importantes conterrâneos nossos. Hoje, praticamente desapareceu do imaginário popular. Houve tempos, porém, em que o assunto ganhou força e provocou debates acalorados.

Vamos aos fatos.

Desde o século XIX, discute-se a possibilidade — ou, para alguns, a necessidade — da criação de um espaço político-administrativo envolvendo territórios próximos às divisas dos atuais estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Ao longo do tempo, surgiram propostas com diferentes denominações: Nova Província do Crato, Província do Cariri Novo, Estado do Araripe e Estado do Cariri.

Em 1828, em meio às acirradas disputas políticas entre liberais e os chamados “corcundas”, a Câmara da Vila do Crato chegou a defender o desmembramento do território caririense do restante do Ceará, incorporando áreas limítrofes das províncias da Paraíba e de Pernambuco.

Vamos parar por aí nessa viagem pelo século XIX para não transformar esta coluna em tratado de História. O importante é registrar que a ideia de autonomia político-administrativa do Cariri vem de longe.

Já na década de 1960, o assunto voltou à baila.

Em 1963, a campanha pela criação do Estado do Cariri foi retomada, desta vez sob a liderança do advogado Raimundo de Oliveira Borges. E o interessante é que a proposta não encontrou repercussão apenas dentro do Ceará. Houve boa receptividade em Picos, no Piauí, assim como manifestações favoráveis nos sertões pernambucanos, especialmente em Bodocó e Exu.

Segundo registros de Figueiredo Filho, a justificativa apresentada por moradores dessas regiões era praticamente a mesma: a distância dos grandes centros de decisão e a sensação de abandono por parte dos respectivos governos estaduais. Em outras palavras, parcelas importantes do interior nordestino começavam a questionar por que permaneciam tão distantes das grandes realizações administrativas de seus estados.

Eis o ponto central de toda essa história: o interior não queria continuar sendo tratado como periferia administrativa dos grandes centros de poder.

O tempo passou e, décadas depois, a discussão ressurgiu com força no Cariri.

Durante o primeiro governo de Tasso Jereissati, entre 1987 e 1991, voltou a ganhar espaço entre setores da sociedade caririense a ideia de autonomia em relação ao restante do Ceará. Naquele momento, o sentimento existente entre os defensores do movimento era de que nossa região não recebia do Governo do Estado a atenção compatível com sua importância econômica, política e populacional.

Havia a percepção de que as prioridades governamentais estavam excessivamente concentradas em Fortaleza, na Região Metropolitana e no litoral, enquanto o Cariri continuava esperando pelos grandes investimentos públicos capazes de impulsionar definitivamente o seu desenvolvimento.

Foi nesse ambiente de insatisfação que a bandeira do Estado do Cariri voltou a tremular.

E a pergunta feita naquela época era simples: como uma região com tamanho potencial econômico, cultural, turístico e populacional poderia permanecer distante das grandes decisões do poder estadual?

Creio que essa discussão encontrou terreno fértil justamente porque, entre o movimento de 1963 e aquele ressurgimento no final dos anos 1980, permanecia entre muitos caririenses a sensação de que a distância entre Fortaleza e o extremo sul cearense não era apenas geográfica. Era também administrativa e política.

Na minha leitura daqueles acontecimentos, entretanto, o problema ia além da distância.

Tasso Jereissati era, naquele momento, um jovem político criado em Fortaleza, com trajetória empresarial e fortes vínculos fora do interior cearense. Na visão de muitos caririenses da época, faltava-lhe maior identidade e conhecimento das particularidades de nossa região.

Essa percepção alimentou a revolta.

O movimento pela criação do Estado do Cariri passou, então, a funcionar não somente como proposta de reorganização territorial, mas também como instrumento político de pressão. Era uma maneira de dizer ao Palácio do Governo que o Cariri existia, tinha força e não aceitava permanecer fora das grandes prioridades estaduais.

A mobilização incomodou o Governo Tasso. Na memória política daquele período, lideranças ligadas à causa chegaram a enfrentar forte resistência de integrantes da administração estadual.

Com o passar do tempo, entretanto, a relação entre o Governo do Ceará e o Cariri foi mudando. A região passou a conquistar maior espaço político e investimentos públicos, sobretudo em períodos posteriores, atravessando os governos de Cid Gomes, do caririense Camilo Santana e, atualmente, de Elmano de Freitas.

É justamente por conhecer essa história que considero importante recuperá-la neste momento.

Quando nomes como Tasso Jereissati e Ciro Gomes voltam ao centro das discussões sobre os rumos políticos do Ceará, penso que o Cariri também tem o direito de revisitar sua própria memória e discutir, com serenidade e profundidade, como nossa região foi tratada pelos diferentes governos ao longo das últimas décadas.

Não se trata necessariamente de ressuscitar hoje uma campanha separatista. Trata-se de não esquecer por que ela nasceu, por que encontrou apoio popular em determinados períodos e quais circunstâncias políticas fizeram tantos caririenses sonharem com uma unidade federativa própria.

A História existe também para isso: impedir que um povo perca a memória de suas lutas.

E, se um dia o sentimento de abandono voltar a tomar conta desta brava gente do Sul do Ceará, quem garante que aquela velha frase não volte a ecoar pelos pés da Chapada do Araripe?

“Imagine o Ceará ser dividido e o Cariri ficar independente…”

Com os devidos royalties à grande cantora nordestina Elba Ramalho.

EM TEMPO: Durante o primeiro Governo Tasso Jereissati, lideranças que encabeçavam o movimento pela criação do Estado do Cariri enfrentaram forte reação do governador e de integrantes de sua administração. É mais um capítulo dessa história que merece ser pesquisado, documentado e preservado para que as novas gerações compreendam que a discussão sobre a autonomia do Cariri não nasceu ontem.

Sorry, periferia!!!!

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Um dia acordei para ‘jornalizar’ a vida com os meus leitores. Nesta época trabalhava no extinto jornal Tribuna do Ceará, de propriedade do saudoso empresário José Afonso Sancho. Daí me veio a ideia de criar o meu próprio site. O ponta pé inicial se deu com a criação do Caririnews, daí resolvi abolir este nome e torna-lo mais regional, foi então que surgiu O site “Caririeisso” e, desde lá, já se vão duas décadas. Bom saber que mesmo trabalhando para jornais famosos na época, não largava de lado o meu próprio meio de comunicação. Porém, em setembro de 2017 resolvi me dedicar apenas ao site “Caririeisso”, deixando de lado o jornal Diário do Nordeste, onde há sete anos escrevia uma coluna social…

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