
Pedro do Coutto

A eleição presidencial terminou, mas a política brasileira está longe de entrar num período de tranquilidade. Enquanto o presidente Lula da Silva se prepara para um novo mandato de quatro anos, três movimentos ajudam a compreender os desafios que se colocam no horizonte: o agravamento do endividamento público, a disputa pela reorganização da direita depois da saída de Flávio Bolsonaro do país e as articulações no Senado que voltam a colocar a possibilidade de um perdão a Jair Bolsonaro no centro das negociações políticas.
No campo econômico, os números exigem atenção. Segundo os dados divulgados pelo Banco Central, a dívida bruta do governo geral alcançou 82,9% do Produto Interno Bruto em setembro de 2026, o equivalente a aproximadamente R$ 11,1 trilhões. Desde dezembro de 2022, quando Lula iniciou o atual mandato, o indicador avançou 11,2 pontos percentuais. Trata-se de um crescimento expressivo, que coloca as contas públicas diante de uma questão incontornável: como financiar as obrigações do Estado sem ampliar continuamente o custo da dívida e comprometer a capacidade de investimento do país?
PREÇO DO FINANCIAMENTO – O problema não está apenas no tamanho do endividamento, mas também no preço que o Brasil paga para financiá-lo. Nos 12 meses encerrados em setembro, as despesas com juros nominais do setor público chegaram a aproximadamente R$ 1,2 trilhão, correspondentes a quase 9% do PIB. É um volume que revela a dimensão do esforço financeiro necessário para sustentar a estrutura de financiamento do Estado. Com a taxa Selic ainda em 13,75% ao ano, mesmo depois da redução promovida pelo Banco Central em setembro, o custo do crédito permanece elevado, tanto para o setor público quanto para empresas e consumidores.
É preciso, entretanto, distinguir os mecanismos envolvidos. Nem toda a dívida pública é remunerada diretamente pela taxa Selic, pois os títulos do Tesouro possuem diferentes indexadores e prazos. Ainda assim, os juros elevados influenciam o custo de refinanciamento e a remuneração de parte significativa dos títulos públicos, tornando mais difícil estabilizar a trajetória do endividamento. O governo precisa administrar vencimentos, emitir novos títulos e encontrar recursos para cumprir compromissos financeiros que não desaparecem com a simples renovação das obrigações.
A pressão também chega diretamente às famílias. Dados do Banco Central mostram que o endividamento dos brasileiros com o sistema financeiro alcançou 50,1% da renda anual em agosto, o maior patamar da série histórica. Isso significa que o conjunto das dívidas equivale a mais da metade dos rendimentos anuais das famílias. Não significa, porém, que essa proporção seja paga integralmente todos os meses. O indicador que mede o comprometimento mensal da renda com o serviço das dívidas é outro e também se encontra em patamar preocupante. A combinação de crédito caro, prestações elevadas e crescimento das obrigações financeiras limita o consumo e reduz a capacidade de reação dos orçamentos domésticos.
SUSTENTABILIDADE – A questão fiscal, portanto, não pode ser reduzida a uma disputa entre governo e oposição. A sustentabilidade das contas públicas depende de decisões sobre receitas, despesas, crescimento econômico, produtividade e qualidade do gasto. A expansão do endividamento, quando não acompanhada de uma estratégia credível de estabilização, diminui a margem de atuação dos governos e aumenta a vulnerabilidade da economia às oscilações dos juros e à confiança dos investidores. O desafio de Lula será demonstrar que o crescimento económico e as políticas sociais podem avançar sem que o financiamento do Estado se transforme numa fonte permanente de desequilíbrio.
Mas a economia não é o único terreno em que o resultado eleitoral começa a produzir consequências. A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, poucos dias depois de sua derrota para Lula, abriu um espaço político que outros integrantes da direita procuram ocupar. A viagem do senador aos Estados Unidos ganhou uma dimensão adicional depois que o The New York Times revelou que Jason Miller, ligado à área de comunicação da Casa Branca, teria providenciado o avião particular utilizado no deslocamento entre Argentina, Equador e Estados Unidos. A informação, também repercutida pelo Washington Post, acrescenta um elemento internacional a um episódio que já provocava questionamentos sobre a disposição de Flávio de permanecer no país e exercer a liderança da oposição que havia reivindicado durante a campanha.
A consequência mais imediata é a disputa pelo comando político da direita. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e Michelle Bolsonaro surgem como nomes com capacidade de ocupar parte desse espaço, embora representem estratégias e bases de apoio diferentes. Tarcísio dispõe de uma estrutura administrativa importante, interlocução com setores empresariais e capacidade de negociação com forças do centro político. Michelle, por sua vez, conserva uma ligação direta com o eleitorado bolsonarista e conta com o apoio de setores do Partido Liberal. Nenhum dos dois, entretanto, tem assegurada a liderança de um campo que permanece dividido entre a fidelidade à família Bolsonaro e a necessidade de construir uma alternativa eleitoral mais ampla.
PERFIL DA OPOSIÇÃO – A disputa também envolve uma definição sobre o próprio perfil da oposição. Uma direita interessada em recuperar espaço institucional precisará demonstrar compromisso com o funcionamento das instituições, com a legitimidade dos resultados eleitorais e com a alternância de poder. Não basta substituir os protagonistas ou adotar uma linguagem mais moderada. A credibilidade de qualquer projeto de reorganização dependerá da disposição de estabelecer limites claros em relação aos setores que questionam a democracia quando os resultados das urnas não correspondem às suas expectativas.
Nesse cenário, a movimentação de Davi Alcolumbre merece atenção particular. O presidente do Senado estaria avaliando a possibilidade de articular uma solução política para a situação de Jair Bolsonaro, incluindo a discussão de um eventual indulto ou de uma anistia, numa tentativa de ampliar o apoio à sua recondução ao comando da Casa em 2027. A iniciativa revela como a situação judicial do ex-presidente continua a ser utilizada como elemento de negociação entre diferentes grupos parlamentares.
Há, contudo, uma diferença jurídica fundamental entre os dois instrumentos. O indulto é uma prerrogativa do presidente da República, enquanto a anistia depende de aprovação legislativa. Alcolumbre não pode conceder diretamente um perdão presidencial, mas pode procurar construir uma articulação política em torno dessa possibilidade. Até agora, não existe uma solução formalmente acordada, e a própria resistência de setores da oposição demonstra que a negociação está longe de ser simples.
PROTAGONISMO PERDIDO – A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro também alterou o ambiente em que essas conversas acontecem. A família perdeu a oportunidade de manter o protagonismo presidencial e enfrenta agora o desafio de preservar influência política sem dispor do mesmo capital eleitoral que procurava mobilizar durante a campanha. Além disso, a tentativa de transformar um eventual perdão ao ex-presidente numa moeda de troca parlamentar esbarra numa questão maior: até que ponto os interesses de sobrevivência política podem prevalecer sobre a autonomia das instituições e a responsabilidade decorrente de decisões judiciais?
O Brasil entra, assim, numa etapa em que os efeitos da eleição ultrapassam a composição do governo. A administração Lula terá de enfrentar o custo crescente da dívida, preservar a confiança económica e demonstrar capacidade de governar num ambiente de expectativas elevadas. A direita, por sua vez, terá de decidir se pretende reconstruir uma oposição institucionalmente responsável ou continuar subordinada às disputas internas do bolsonarismo. No Congresso, as negociações em torno da presidência do Senado mostram que a política continuará a produzir aproximações, recuos e acordos cuja viabilidade nem sempre é evidente.
As hipóteses podem ser remotas, mas não são politicamente irrelevantes. Muitas vezes, a influência de uma proposta não está na possibilidade imediata de concretização, mas na capacidade de alterar alianças, condicionar decisões e reposicionar os protagonistas. É nesse terreno que começa a ser disputado o Brasil depois das urnas.



