
MARCOS PEIXOTO

O presidente Lula é um político astuto, daí saber, como poucos, manobrar uma campanha política. Para ele, não basta enfrentar o adversário apenas promovendo benesses para o povo — algo que sabe fazer como poucos neste país. Lula também sabe que uma eleição não depende somente de pedir votos à população e de apresentar os benefícios proporcionados por seu governo.
Existem outras ações que exigem do candidato inteligência e habilidade política para enfraquecer o oponente. É o caso de enxergar na candidatura à Presidência de Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, uma maneira de esvaziar o palanque de Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, retirar votos de sua candidatura. Nesse tabuleiro, uma composição envolvendo Gilberto Kassab como candidato a vice-presidente de Caiado poderia contribuir para aumentar as dificuldades da principal candidatura oposicionista que se encontra no páreo.
Ao se reconciliar com os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, Lula não apenas os afastou do palanque do filho 01 de Bolsonaro, como também passou a receber deles ajuda política em seus estados de origem e na aproximação com lideranças de diferentes regiões do Brasil. Hugo Motta e Davi Alcolumbre já perceberam que, se Lula não conquistar o quarto mandato, dificilmente os bolsonaristas estarão dispostos a apoiar suas reconduções às respectivas presidências da Câmara e do Senado.
Por outro ângulo, Lula, que ao longo de seus governos manteve relações com quase todos os partidos com representação nas duas Casas do Congresso, distribuindo ministérios e outros espaços políticos, conseguiu fazer com que boa parte das legendas de direita cruzasse os braços na atual campanha. Com isso, Flávio Bolsonaro encontrou dificuldades para agregar à sua candidatura alianças partidárias robustas. Algumas dessas forças preferiram adotar uma postura de neutralidade na eleição presidencial, liberando seus filiados nos estados.
Sem esse alicerce político, o presidenciável Flávio Bolsonaro ficou naquela de “pelado com as mãos nos bolsos”. Lula, por sua vez, prepara-se para partir como uma águia em direção ao Sudeste, na tentativa de reverter a situação de desvantagem em que hoje se encontra diante de seu principal oponente.
Enquanto o presidente, com desenvoltura, costura estratégias destinadas a enfraquecer o adversário fora do ringue, Flávio Bolsonaro ainda não demonstra a mesma capacidade de articulação nos bastidores — seja pela menor experiência política, seja pela dificuldade de montar estratégias semelhantes às do candidato petista.
O próximo passo de Lula será tentar convencer o pessoal do agronegócio e os grandes empresários da Faria Lima de que é o candidato capaz de recolocar o Brasil nos trilhos do crescimento econômico. Tanto é assim que passou a incluir em seu discurso temas como controle fiscal e contenção de gastos, ao mesmo tempo que defende a ampliação dos investimentos públicos e privados, com prioridade para infraestrutura logística e social, inovação e indústria.
A proposta é aumentar a competitividade da produção nacional, melhorar a prestação dos serviços públicos e posicionar o Brasil em setores considerados estratégicos na disputa tecnológica global. Lula sabe que eleição não se ganha apenas no palanque ou diante das câmeras. Ganha-se também — e muitas vezes principalmente — nos bastidores, desmontando pontes do adversário enquanto se constroem as próprias.





