

A morte de Darcy Ribeiro deve ter ocorrido em um dos cenários mais lindos – se é que se pode falar em beleza quando o tema é a morte. Darcy teria solicitado que, em seus últimos momentos, fosse assistido por Frei Betto e por Leonardo Boff. Somente Leonardo Boff esteve presente. A morte de Darcy Ribeiro aconteceu, depois de resistências para lá de heroicas, em Brasília, no dia 17 de fevereiro de 1997.
Quando Leonardo chegou, Darcy lhe entregou suas Confissões, ainda inéditas, e pediu que lesse o parágrafo final do Prólogo. Leonardo leu:
“Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memória de virtudes e gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos.”
Boff diz a Darcy que aquela leitura é a interpretação de quem vê de fora, citando a história do casulo e da borboleta: o casulo morre para que a borboleta possa ter vida. Esta foi apenas a entrada para a conversa que iria se aprofundar.
Leonardo conta como imagina que seria a chegada de Darcy “lá em cima” e como ele seria recebido:
“E você, Darcy, não será recebido por Deus Pai; você será recebido por Deus em forma de mãe.”
Darcy não se conteve e perguntou:
“Então serei recebido por uma deusa?!”
Boff completou a imagem, afirmando que Darcy seria recebido de braços abertos e com palavras generosas, algo como:
“Como você demorou! Você não queria vir… mas, já que veio, irá de abraço em abraço e de festa em festa, sendo apresentado a todos.”
E Darcy, espirituoso, completou:
“Então será de farra em farra?” (Risos)
Boff narra que nesse momento Darcy parou, olhou de lado, como que o interrogando e disse: “Como gostaria que fosse verdade! Minha mãe morreu cheia de fé e morreu tranquila, eu invejo você, que é um homem inteligente e de fé. Eu não tenho fé. Como gostaria que fosse verdade. “





