ENTRE A DESAPROVAÇÃO E O VOTO: O PARADOXO ELEITORAL DE LULA NOS GRANDES COLÉGIOS

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Pedro do Coutto

Lula mostra que a democracia está segura sob o seu governo

A reportagem de Caio Sartori, publicada em O Globo, oferece um retrato instigante — e politicamente decisivo — do momento vivido pelo governo Lula nos principais colégios eleitorais do país. Ao analisar a avaliação da administração federal por regiões, sobretudo no Sudeste, o texto ilumina um paradoxo que desafia leituras apressadas: a queda consistente da aprovação do governo não se converte, automaticamente, em perda de competitividade eleitoral do presidente.

Os números são eloquentes. No Sudeste, região mais populosa e economicamente decisiva do país, a desaprovação ao governo já supera com folga a aprovação. Em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, a tendência é semelhante, com destaque para o Sudeste como um todo, onde 56% desaprovam e apenas 40% aprovam. Mais relevante ainda é a curva: em relação à pesquisa anterior, a desaprovação avançou de forma sensível, sinal inequívoco de alerta no convés da reeleição.

JOGO EMBARALHADO – À primeira vista, o cenário pareceria preocupante. Em disputas recentes, perder o Sudeste significou, para muitos candidatos, comprometer seriamente qualquer projeto nacional. No entanto, o dado que embaralha o jogo político está logo adiante: nos mesmos estados onde a avaliação do governo é negativa, Lula segue liderando as intenções de voto, tanto no primeiro quanto no segundo turno, contra qualquer adversário testado. Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, por exemplo, ele aparece à frente mesmo entre eleitores que declaram desaprovar sua gestão.

Esse descolamento entre avaliação administrativa e decisão eleitoral não é novo na ciência política, mas raramente se manifesta de forma tão clara. Governos podem ser mal avaliados sem que isso implique rejeição eleitoral direta ao incumbente. O voto, afinal, não é um julgamento técnico da administração, mas uma escolha comparativa, atravessada por memória política, identidade, expectativas e, sobretudo, pelo medo do retrocesso.

UTILIDADE LIMITADA – Nesse ponto, a comparação feita na reportagem entre Lula e Jair Bolsonaro, a partir do desempenho eleitoral passado nos grandes estados, tem utilidade limitada. Bolsonaro não é candidato, e medir o presente com a régua de uma disputa que não se repetirá tende a produzir ruído analítico. A pergunta central não é se Lula está melhor ou pior do que seu antecessor, mas se o eleitor acredita que qualquer alternativa concreta apresentada hoje seria melhor do que ele.

Há, evidentemente, razões objetivas para a queda na aprovação do governo. O eleitor cobra a entrega das promessas de campanha, especialmente no campo econômico e social. Escândalos recentes envolvendo o INSS, os Correios e instituições financeiras públicas corroem a confiança na administração e alimentam a percepção de ineficiência ou descontrole, como já indicaram levantamentos de institutos de pesquisa amplamente reconhecidos, como Datafolha, Ipec e Quest. Esses episódios pesam na avaliação do governo — e tendem a continuar pesando.

OUTRA LÓGICA – Mas o voto obedece a outra lógica. Quando chega a hora da urna, muitos eleitores distinguem o governo do governante. Lula, como figura política, preserva um capital simbólico e democrático que segue operando a seu favor. Sua trajetória, sua relação histórica com parcelas amplas do eleitorado e, sobretudo, a percepção de que ele representa previsibilidade institucional e respeito às regras do jogo democrático funcionam como um amortecedor eleitoral poderoso.

Esse fator democrático não é trivial. Em um mundo marcado por lideranças erráticas e pulsões autoritárias — basta observar o grau de incerteza que ainda envolve Donald Trump nos Estados Unidos — a previsibilidade institucional tornou-se um ativo político. Lula, goste-se ou não de seu governo, transmite a sensação de que a democracia não está em risco sob sua liderança. Essa tranquilidade pesa, silenciosamente, na decisão do eleitor.

DINÂMICA PRÓPRIA – Nada disso, porém, autoriza complacência. O presidente parece ter compreendido o sinal emitido pelas pesquisas e já se move para atuar mais diretamente nos estados, fortalecendo palanques regionais e evitando derrotas expressivas, especialmente em São Paulo. Há tempo para reagir, ajustar a rota econômica, recompor alianças e recuperar parte da aprovação perdida. Reeleição, como a história mostra, afirma-se por dinâmica própria; aprovação governamental é outra história, regida por critérios mais imediatos e voláteis.

O paradoxo está posto: Lula pode ser desaprovado como gestor e ainda assim preferido como presidente. A questão política central, daqui em diante, será saber até quando essa dissociação se sustenta — e se o governo conseguirá reduzir a distância entre a avaliação crítica da administração e a confiança eleitoral que, por ora, permanece intacta.

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Um dia acordei para ‘jornalizar’ a vida com os meus leitores. Nesta época trabalhava no extinto jornal Tribuna do Ceará, de propriedade do saudoso empresário José Afonso Sancho. Daí me veio a ideia de criar o meu próprio site. O ponta pé inicial se deu com a criação do Caririnews, daí resolvi abolir este nome e torna-lo mais regional, foi então que surgiu O site “Caririeisso” e, desde lá, já se vão duas décadas. Bom saber que mesmo trabalhando para jornais famosos na época, não largava de lado o meu próprio meio de comunicação. Porém, em setembro de 2017 resolvi me dedicar apenas ao site “Caririeisso”, deixando de lado o jornal Diário do Nordeste, onde há sete anos escrevia uma coluna social…

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