
Marcelo Copelli
Revista Fórum

Flávio Bolsonaro já não enfrenta apenas dificuldades típicas de uma pré-campanha presidencial. Os acontecimentos das últimas semanas abalaram a principal premissa que sustentava sua candidatura: a de que herdaria naturalmente a liderança do bolsonarismo.
A pesquisa Genial/Quaest, a postura dos partidos aliados, o fortalecimento de Michelle Bolsonaro e as tensões no PL convergem para o mesmo diagnóstico. A sucessão deixou de ser uma transmissão de legado para transformar-se em uma disputa política cujo desfecho está longe de favorecer o senador.
PROTAGONISMO – Desde 2018, o bolsonarismo organizou-se em torno da figura de Jair Bolsonaro. Sua influência extrapolava o eleitorado. Ela orientava partidos, arbitrava conflitos e definia prioridades estratégicas para um campo político até então fragmentado. Mesmo após deixar a Presidência, Bolsonaro permaneceu como o principal polo de convergência da oposição. A inelegibilidade, contudo, alterou essa dinâmica. Sua influência continua decisiva, mas já não basta, sozinha, para definir quem conduzirá a direita na próxima eleição.
A aposta do PL parecia natural: o filho mais velho do ex-presidente reunia experiência parlamentar, identificação com a base bolsonarista e o aval da principal liderança do campo conservador. Durante algum tempo, essa combinação alimentou a expectativa de que a sucessão ocorreria sem grandes sobressaltos. Os fatos das últimas semanas, porém, mostram que a realidade política se tornou mais complexa. O sobrenome deixou de garantir liderança.
A recente pesquisa Genial/Quaest produziu um efeito que vai além dos números. Ao ampliar a vantagem de Lula, reforçou entre partidos e lideranças a avaliação de que a candidatura de Flávio Bolsonaro perdeu força. Em política, a viabilidade costuma ser tão importante quanto a intenção de voto. Quando ela se enfraquece, alianças deixam de avançar, negociações perdem velocidade e potenciais aliados preferem adiar decisões. Foi esse ambiente de espera que passou a cercar a pré-candidatura do senador.
NEUTRALIDADE – A posição adotada por União Brasil, PP e Republicanos reflete essa lógica. As três legendas mantêm interlocução com o bolsonarismo e compartilham parte importante de sua agenda política, mas preferem preservar liberdade de negociação enquanto o cenário permanece aberto. Mais do que afinidade ideológica, prevalece o pragmatismo eleitoral. Para quem pretende liderar uma candidatura presidencial, esse movimento produz um efeito inevitável: enfraquece a convicção de que seu nome represente o caminho natural para a unificação da direita.
Foi nesse espaço de incerteza que Michelle Bolsonaro ganhou protagonismo. Sua boa aceitação entre mulheres, evangélicos e eleitores conservadores deixou de representar apenas um ativo eleitoral da campanha de Flávio para transformar-se em um elemento da própria disputa pelo comando da direita. A questão deixou de ser apenas quem enfrentará Lula em 2026. Antes disso, tornou-se necessário definir quem será reconhecido como principal representante do bolsonarismo.
A necessidade de Jair Bolsonaro reafirmar publicamente Flávio como seu representante ilustra essa mudança. Em outro momento, sua palavra provavelmente encerraria qualquer especulação sobre a sucessão. Hoje, embora preserve influência, ela já não elimina automaticamente outras possibilidades, porque a direita se tornou mais plural e menos dependente de um único centro de comando.

AUTONOMIA – Essa transformação também resulta da evolução do próprio campo conservador. Desde 2018, governadores ampliaram protagonismo, partidos fortaleceram sua autonomia e lideranças regionais consolidaram bases políticas próprias. A direita tornou-se institucionalmente mais robusta e politicamente mais diversa. Se antes bastava acompanhar um líder nacional, agora passou a ser necessário acomodar interesses distintos e construir consensos entre atores que ganharam peso político. Nesse ambiente, legitimidade precisa ser conquistada; já não pode ser presumida.
Seria precipitado concluir que Flávio Bolsonaro perdeu viabilidade eleitoral. A campanha permanece aberta e a influência de Jair Bolsonaro continua sendo um ativo político. Os acontecimentos recentes, contudo, autorizam uma conclusão mais objetiva: a estratégia do PL, construída sobre a expectativa de uma sucessão linear, tornou-se muito mais difícil de sustentar.
ALIANÇAS – A eleição de 2026 decidirá mais do que o próximo presidente da República. Ela mostrará também como a direita brasileira responderá ao impasse sucessório aberto pela inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Se durante anos bastava a palavra do ex-presidente para organizar o campo conservador, agora a definição de seu sucessor dependerá da capacidade de construir alianças, inspirar confiança e produzir convergência entre forças políticas cada vez mais autônomas.
É justamente nesse terreno que Flávio Bolsonaro enfrenta o maior teste de sua vida pública. Se os acontecimentos das últimas semanas continuarem apontando na mesma direção, chegará à campanha não como o candidato que unificou a direita, mas como o símbolo de uma sucessão que fracassou antes mesmo de se consolidar.
Mais do que comprometer um projeto presidencial, esse desfecho poderá marcar o momento em que o sobrenome Bolsonaro deixou de ser suficiente, por si só, para assegurar a liderança do campo conservador.






