
Malu Gaspar
O Globo
Um movimento do governo Lula ligou um sinal de alerta na cúpula da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) ainda durante a votação do primeiro turno e com as urnas abertas: a abertura de um inquérito sobre a suposta interferência dos Estados Unidos na eleição.
A decisão, anunciada pelo diretor-geral da Polícia Federal (PF) Andrei Rodrigues, foi motivada pela publicação de uma reportagem do The Guardian segundo a qual um projeto do governo dos Estados Unidos prevê recursos para grupos da sociedade civil que se opõem ao que classificam como abuso de poder judicial e censura por parte do Supremo Tribunal Federal (STF).
CAMINHO DO DINHEIRO – Pelo documento a que o jornal teve acesso, cerca de R$ 5,2 milhões seriam direcionados ao Brasil por meio do projeto “Combate à Litigância Deliberativa e à Censura no Brasil”. Não se sabe, porém, se o dinheiro chegou a ser enviado, quanto e para quem.
Segundo Rodrigues, o inquérito foi pedido pela Advocacia-Geral da União (AGU). A apuração está em andamento na Diretoria de Inteligência da PF, em caráter preliminar.
“Recebemos uma representação da AGU sugerindo apuração de interferência externa. Foi encaminhado para a Diretoria de Inteligência para dar início à apuração. É uma investigação em andamento, um procedimento prévio. Não foi publicada a portaria do inquérito, mas já temos uma investigação em curso”, declarou o diretor-geral no domingo.
MANIFESTAÇÃO – A portaria de instauração do inquérito ainda não foi publicada. Pedido semelhante foi feito nesta semana pelo PT ao Supremo, mas a PF foi mais rápida. Em julho passado, porém, a Procuradoria-Geral da República (PGR) já se manifestou contra um pedido similar apresentado pelo deputado federal Rui Falcão (PT-SP), depois que o mesmo edital do Departamento de Estado do governo Donald Trump abordado na semana passada pelo The Guardian foi reportado pelo site Brasil 247 no fim de junho.
Na ocasião, o procurador-geral, Paulo Gonet, entendeu que não havia evidências mínimas de interferência americana para instaurar um procedimento preliminar com base em uma reportagem. Menos de três meses depois, a PF adotou um entendimento diferente em um caso similar. Nas redes sociais, o advogado-geral da União, Jorge Messias, destacou que a decisão da corporação atendeu a um pedido da AGU.
DESCONFIANÇA – Na cúpula da campanha bolsonarista, espalhou-se a desconfiança de que a medida pode vir a ganhar corpo nas próximas semanas com novas denúncias como forma de justificar alguma nova decisão do STF contra o presidenciável ou seu entorno.
O fato de o PT ter feito o pedido diretamente ao ministro Flávio Dino também fez surgir o alerta na campanha de Flávio Bolsonaro. Os aliados dele têm afirmado que esperam novas decisões do Supremo até a realização do segundo turno. Citam inclusive decisões de Dino que consideram contra a candidatura de Flávio — como chamar para si a investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre a destinação dos recursos do filme “Dark Horse”, a respeito da vida de Jair Bolsonaro e determinar que a perícia do material seja feita pela PF.
REINTEGRAÇÃO – Aliado de Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes e antagonista de André Mendonça no STF, Flávio Dino também decidiu reintegrar Andrei Rodrigues ao cargo e pediu ao STF uma investigação sobre elos entre Mendonça e o Banco Master.
Embora o próprio Rodrigues tenha dito na entrevista em que anunciou a abertura do inquérito que não há por ora nenhum indício de interferência estrangeira na eleição, até que as urnas se fechem e o resultado seja anunciado o inquérito vai continuar pairando sobre a campanha e bastante temido pelo bolsonarismo.





