
HENRIQUE PINHEIRO
Porto Alegre, 27 de agosto de 1961.

Dois dias após a renúncia de Jânio Quadros (1917–1992), o Brasil vivia uma crise institucional. João Goulart (1919–1976) era o sucessor constitucional, mas estava do outro lado do mundo, em missão oficial na Ásia. Os ministros militares se opunham à sua posse e ao seu retorno.
No Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (1922–2004), governador e cunhado de Jango, decidiu resistir. Tinha 39 anos. Sua principal arma seria o rádio.
A televisão já existia, mas era cara, concentrada nos grandes centros e sem rede nacional. Quem chegava às casas e ao interior era o rádio.
Brizola começou a usá-lo para defender a Constituição.
Foi então que tentaram calá-lo.
Por determinação do ministro da Guerra, marechal Odylio Denys (1892–1985), emissoras que transmitiam seus pronunciamentos foram silenciadas. Mandaram lacrar os cristais dos transmissores.
Eram pequenos cristais de quartzo que mantinham a frequência das emissoras. Sem eles, a rádio não conseguia transmitir normalmente.
Mas a Rádio Guaíba permanecia no ar. Pertencia à Companhia Jornalística Caldas Júnior, de Breno Caldas (1910–1989).
A Guaíba não havia transmitido os pronunciamentos de Brizola. Seus cristais permaneceram intactos.
Brizola requisitou a emissora.
Do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, sua voz voltou ao ar. Outras emissoras passaram a retransmiti-la.
Nascia a Rede da Legalidade.
A população ocupou as ruas. Brizola mobilizou a Brigada Militar, força policial militar do Estado, subordinada ao governador. Organizada e armada nos moldes militares, tinha condições de proteger o Piratini e oferecer resistência, mas seu poder de fogo era muito inferior ao do Exército.
E esse era o grande problema.
O III Exército comandava as forças do Exército no Sul e concentrava enorme poder militar no Rio Grande do Sul.
Seu comandante, general José Machado Lopes (1900–1990), poderia decidir o destino da resistência.
Brizola ainda não sabia de que lado ele ficaria.
Tentaram calá-lo retirando pequenos cristais de quartzo.
Conseguiram o contrário.
A rádio que não havia transmitido Brizola tornou-se a voz da Legalidade.
No dia seguinte, Machado Lopes seguiria para o Palácio Piratini.





