

Conversava ontem com uma amiga dos tempos do Colégio Diocesano do Crato quando, em meio a um daqueles papos que começam despretensiosos e terminam inevitavelmente na política, ela me perguntou em quem eu votaria para presidente da República e para governador do Ceará.
Em caráter absolutamente confidencial, revelei minhas escolhas — incluindo os nomes para o Senado —, mas pedi que guardasse aquela informação a sete chaves. Como jornalista, sempre procurei preservar publicamente minhas preferências eleitorais. Uma coisa é analisar candidaturas, cenários e movimentos partidários; outra, bem diferente, é transformar a atividade jornalística em palanque para as próprias convicções.
Sentindo-se contemplada pela confiança, minha amiga resolveu fazer o mesmo e abriu o jogo sobre suas preferências para as eleições de 2026. Foi quando me apresentou um dilema que, segundo ela, vem lhe causando certo constrangimento político.
Eleitora de Flávio Bolsonaro para a Presidência da República, contou que, no Ceará, sente-se quase obrigada a guardar sua preferência na intimidade. Nas manifestações de Ciro Gomes das quais tem participado aqui pelo Crajubar, percebe, segundo sua própria avaliação, um ambiente em que os presentes evitam aclamar abertamente o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
E aí reside a sua inconformidade.
“Que democracia é essa em que eu não posso levantar a bandeira do meu candidato?”, questionou-me, em outras palavras. Para ela, nada deveria ser mais natural em um encontro político do que vestir a camisa, empunhar a bandeira, gritar o nome do presidenciável de sua preferência e participar de adesivaços sem precisar esconder aquilo em que acredita.
Mas o desassossego da minha velha colega de tempos colegiais não parou por aí.
Ela contou que ficou ainda mais contrariada depois de ler matéria em que tratei das posições de Capitão Wagner e Alcides Fernandes, seus candidatos ao Senado. Na interpretação dela, ambos também estariam procurando estabelecer certa distância política de Flávio Bolsonaro, na tentativa de evitar eventuais prejuízos eleitorais às próprias campanhas.
“Enquanto era somente Ciro evitando uma aproximação maior, eu ainda conseguia entender. Agora, quando até bolsonaristas de carteirinha começam a fazer o mesmo, pera lá… Assim já é demais”, desabafou.
Ouvi atentamente a minha amiga e, ao final da conversa, despedi-me desejando que ela encontre uma saída para o seu dilema eleitoral.
Afinal, independentemente de quem esteja à direita, à esquerda ou ao centro, há uma questão que merece reflexão: o eleitor tem o direito de saber com a maior clareza possível quais são as alianças, preferências e compromissos daqueles que lhe pedem o voto.
Política democrática pressupõe transparência. É perfeitamente legítimo aproximar-se, afastar-se, construir alianças ou estabelecer diferenças em relação a qualquer candidatura. O que não combina com a boa política é tentar oferecer ao eleitor uma imagem durante a campanha e, nos bastidores, cultivar outra inteiramente diferente.
Porque, quando chega a hora de pedir voto, convém colocar todas as cartas sobre a mesa.
Do contrário, fica aquela velha sensação de que estão querendo vender gato por lebre.
Vou te contar…





