TECNOLOGIAS DIGITAIS HUMILHAM OS IDOSOS, QUE SE TORNARAM DEPENDENTES FUNCIONAIS

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Ruy Castro
Folha

Minha amiga Ana Luiza recebeu e me mandou. Num cartum, um idoso de capa, cachecol e bengala está diante de um balcão de informações. A atendente lhe mostra o celular e o instrui: “O senhor baixa o aplicativo e entra em ‘gerar código de acesso’. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em ‘escolher o arquivo’. Ele vai pedir um código de liberação do acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF… Entendeu?”.

O cartum é assinado por Tom Cotrim. Mostra uma realidade que está acontecendo neste momento no seu bairro, com macróbios quase centenários como eu ou talvez você.

EXCLUDÊNCIAS – Sob o cartum, segue-se um texto não assinado: “Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar os seus próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos.

Em 2026, tudo virou um aplicativo, um código, um portal. Mas quem construiu este país com as próprias mãos vê-se hoje analfabeto dentro da própria casa. Para marcar uma consulta ou pagar uma conta, é preciso um filho ou neto, quando existe um”.

O texto continua: “Isso é exclusão. A tecnologia deve ajudar, não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo —apenas nos tornando mais cômodos e egoístas”.

DITADURA DIGITAL – Há anos, no começo da ditadura do smartphone, observei as tentativas de gente da minha geração para se entender com o bicho, assim como se entendia com as novidades da antiga tecnologia.

Não queriam parecer velhos ou superados. Mas eles se superestimaram. Não foram capazes de acompanhar a velocidade com que o smartphone evoluiu. Hoje, a tecnologia acha normal que a enorme parcela da população que se recusa a morrer antes da hora —a nossa— seja diariamente humilhada por aquela joça.

Levei a vida me aplicando para escrever direito, ficar atento à história, entender o que lia. Não tenho mais idade, capacidade ou vontade de me converter em engenheiro eletrônico. E acho burro o sistema binário, o do sim ou não. Prefiro o talvez.

UM MINUTO POR FAVOR – Nosso amigo Ruy Castro, um jornalista e escritor absolutamente genial, tem toda razão, como sempre. A tecnologia não pode ser excludente. Ele sempre se recusou a usar celular. Quando entrou na Academia Brasileira de Letras, foi obrigado a aceitar o uso do aparelho digital, mas sempre a contragosto. Eu também nunca me adaptei aos celulares modernos e parei de usar. Mas assim passei a depender do telefone de minha mulher, e agora estou me sentindo dependente funcional. Por isso, vou comprar um novo celular e ir em frente.

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Um dia acordei para ‘jornalizar’ a vida com os meus leitores. Nesta época trabalhava no extinto jornal Tribuna do Ceará, de propriedade do saudoso empresário José Afonso Sancho. Daí me veio a ideia de criar o meu próprio site. O ponta pé inicial se deu com a criação do Caririnews, daí resolvi abolir este nome e torna-lo mais regional, foi então que surgiu O site “Caririeisso” e, desde lá, já se vão duas décadas. Bom saber que mesmo trabalhando para jornais famosos na época, não largava de lado o meu próprio meio de comunicação. Porém, em setembro de 2017 resolvi me dedicar apenas ao site “Caririeisso”, deixando de lado o jornal Diário do Nordeste, onde há sete anos escrevia uma coluna social…

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