
Traída pelo marido, Jair Bolsonaro (PL), na disputa interna do clã pela candidatura presidencial, Michelle Bolsonaro (PL) está causando desespero e irritação na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), que negocia uma adesão pública da madrasta à campanha diante de índices desastrosos no eleitorado feminino, como mostra a recente pesquisa BTG/Nexus.
Preterida da disputa quando se viabilizava como vice na chapa da terceira via, que seria encabeçada por Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), a ex-primeira-dama se afastou do enteado quando, de dentro da prisão, Jair Bolsonaro resolveu ungir o filho como presidenciável em 5 de dezembro passado — um dia após o senador visitar Daniel Vorcaro na mansão dele, em São Paulo, quando o banqueiro já era monitorado com tornozeleira eletrônica pela Polícia Federal.
À época, Michelle foi atacada publicamente por Flávio Bolsonaro, que chamou a madrasta de “autoritária” e criticou sua insubmissão ao afirmar que ela “atropelou o próprio presidente Bolsonaro” ao se opor à aliança com Ciro Gomes (PSDB) nas eleições do Ceará.
Desde então, Michelle se afastou do núcleo duro do clã e passou a mandar mensagens aos enteados pelas redes sociais.
Derretimento nas pesquisas
Nos últimos dias, no entanto, interlocutores que coordenam a campanha de Flávio Bolsonaro voltaram a tentar construir pontes com Michelle diante do desempenho dele no eleitorado feminino.
O efeito Vorcaro, que derreteu a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, se deu principalmente no eleitorado feminino — o mesmo nicho eleitoral que sepultou a tentativa de reeleição do pai em 2022.
Pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (15) mostra que Lula tem ampla vantagem sobre o filho “01” de Jair Bolsonaro (PL), de 20 pontos percentuais, entre as mulheres: 49% a 29%.
Já entre os homens, o senador segue liderando por 40% a 37%, mesmo atingido frontalmente pelo escândalo do Banco Master.
Com os dados, Flávio quer “rechear” a campanha com mulheres. Nesta mesma segunda-feira, anunciou, em evento da Veja, a economista Daniella Marques Consentino como porta-voz junto ao mercado. A decisão atende à condição imposta pela Faria Lima, que pedia uma “Paulo Guedes de saias” em um eventual Ministério da Fazenda e, ao mesmo tempo, acena para o eleitorado feminino.
Flávio ainda ventila a possibilidade de ter uma mulher como vice. Enquanto sonha com a ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS), Flávio teria autorizado o irmão, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), a dar apoio público a Júlia Zanatta (PL-SC) para o posto, como forma de acenar a um eleitorado já trabalhado por Michelle: o das bolsonaristas radicais.
Humilhação pública
Diante da investida, a ex-primeira-dama vazou para interlocutores na mídia liberal que espera um gesto de humilhação pública dos enteados, especialmente de Flávio e Eduardo Bolsonaro.
A ex-primeira-dama enviou o recado de que só embarcará na campanha caso os enteados façam uma retratação nas redes sociais, com pedidos de desculpas pelos ataques à madrasta.
Embora a proposta tenha causado irritação no núcleo duro da campanha, Flávio Bolsonaro não deve reagir.
O motivo é justamente o eleitorado feminino. Flávio sabe do trabalho feito por Michelle. Como presidenta do PL Mulher, a ex-primeira-dama criou núcleos de mulheres em todo o Brasil, que aguardam apenas o apito dela para entrarem definitivamente na campanha.
A questão, que também causa irritação no clã, é que Michelle cultivou o eleitorado para si, e não para os Bolsonaro, mantendo influência direta e superior à dos enteados sobre os núcleos femininos espalhados pelo Brasil.
Flávio sabe que só uma declaração explícita de Michelle colocaria o exército feminino de aliadas na batalha das ruas em sua campanha. E, para isso, pode se submeter até mesmo à humilhação nas redes, fazendo um beija-mão público em “dona” Michelle.





