

Economista Luiz Carlos Bresser-Pereira
O economista Luiz Carlos Bresser-Pereira fez duras críticas ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante entrevista ao podcast Aonde Vamos, no YouTube, ao comentar a manutenção dos juros elevados no Brasil e os entraves ao desenvolvimento econômico do país.
Ao avaliar a atuação de Galípolo, Bresser afirmou que ele teria se aproximado do mercado financeiro e frustrado expectativas de mudança na política monetária. “É um traidor”, disparou o ex-ministro, em uma das declarações mais fortes da entrevista.
Segundo Bresser, havia expectativa de que Galípolo pudesse conduzir uma redução mais consistente da taxa de juros ao assumir o Banco Central. No entanto, para o economista, isso não ocorreu. “O Galípolo enganou primeiro o Fernando Haddad, porque ele foi trabalhar, foi o Fernando Haddad que o convidou para trabalhar, e depois ele enganou o Lula”, afirmou.
O ex-ministro também disse que Galípolo estaria mais preocupado com sua trajetória futura no mercado financeiro do que com uma agenda nacional de desenvolvimento. “O lugar onde ele se imiscui é no mercado financeiro, porque é ali que ele vai continuar a vida dele”, declarou.

Juros altos travam o investimento produtivo
Na entrevista, Bresser-Pereira voltou a defender que os juros elevados são um dos principais obstáculos ao crescimento do Brasil. Para ele, a taxa de juros brasileira é incompatível com a realidade de países de renda média e funciona como estímulo ao rentismo, em vez de incentivar a produção.
“A taxa de juros no Brasil é absurda. Nós estamos cometendo um grande erro”, afirmou.
Em outro momento, classificou a situação como um escândalo: “É uma taxa de juros muito mais alta do que a taxa de juros de outros países que têm o mesmo nível de renda, os mesmos tipos de problemas que nós temos”.
Bresser também criticou o peso dos juros sobre o orçamento público e sobre a economia real. “É 10% do PIB que a gente paga em juros. É um escândalo”, disse.
Novo desenvolvimentismo contra o rentismo

Ao explicar sua teoria do novo desenvolvimentismo, Bresser afirmou que o Brasil precisa abandonar a dependência de capitais externos, neutralizar a chamada doença holandesa e buscar uma taxa de câmbio que permita à indústria voltar a competir.
Segundo ele, o país cometeu um erro ao apostar no crescimento com poupança externa. “Você não cresce com poupança externa. Você não cresce”, afirmou.
Para Bresser, a entrada excessiva de capitais aprecia o câmbio, prejudica a competitividade da indústria e estimula o consumo de curto prazo, sem gerar investimento produtivo sustentável.
Crítica ao modelo liberal
O economista também atacou o liberalismo econômico e afirmou que a economia deve ser coordenada tanto pelo mercado quanto pelo Estado. Para ele, o modelo puramente liberal é ineficiente e protege os interesses dos rentistas.
“O mais eficiente e mais justo é o Estado e o mercado se ajudando mutuamente”, disse.
Bresser defendeu que o desenvolvimentismo é o caminho mais adequado para países como o Brasil, pois combina planejamento estatal, investimento produtivo, câmbio competitivo, infraestrutura e educação.
Lula, distribuição de renda e desenvolvimento

Apesar das críticas à condução econômica, Bresser fez elogios ao presidente Lula. “Eu sou um grande admirador do presidente Lula. Eu acho que é um homem extraordinário”, afirmou.
O economista disse que Lula tem uma preocupação legítima com a desigualdade, devido à sua origem popular e à percepção direta da pobreza no Brasil. No entanto, avaliou que o presidente priorizou a distribuição de renda em detrimento de uma estratégia mais robusta de desenvolvimento econômico.
“Ele claramente escolheu a distribuição, ou seja, distribuir a renda, distribuir a pouca riqueza que há no Brasil, relativamente a outros países, ao invés de se preocupar com o aumento da renda, que é o desenvolvimento econômico”, afirmou.
Indústria sofre com câmbio e falta de investimento
Bresser também alertou que a indústria brasileira permanece estagnada há anos por falta de rentabilidade e de condições macroeconômicas adequadas.
Segundo ele, o câmbio abaixo do patamar necessário para a competitividade industrial prejudica empresas tecnicamente eficientes, mas economicamente inviáveis diante da valorização da moeda.
“A indústria brasileira está estagnada há muitos anos”, afirmou. Para o economista, sem lucro satisfatório, as empresas deixam de investir, o que impede ganhos de produtividade.
Brasil precisa zerar déficit em conta corrente

Outro ponto central da entrevista foi a defesa de que o Brasil zere o déficit em conta corrente. Bresser afirmou que esse tema é negligenciado pelo debate público, enquanto a imprensa e o mercado financeiro concentram a discussão quase exclusivamente no déficit fiscal.
“O déficit em conta corrente é muito importante, então você tem que zerar o déficit em conta corrente”, disse.
Para ele, sem essa mudança, o capital estrangeiro continuará substituindo o capital nacional, ampliando remessas de lucros, juros, dividendos e royalties ao exterior.
Entreguismo e bolsonarismo
Bresser também criticou a extrema direita brasileira, que classificou como entreguista. Ao comentar o bolsonarismo, afirmou que se trata de uma força política sem compromisso nacional.
“São totalmente entreguistas, não têm de nacionalista nada”, declarou.
Segundo ele, diferentemente do nacionalismo de Donald Trump, que classificou como imperialista, o bolsonarismo brasileiro se subordina aos interesses dos Estados Unidos.
China como exemplo desenvolvimentista
Na entrevista, Bresser citou a China como exemplo de país desenvolvimentista, com forte coordenação estatal e política econômica voltada ao investimento produtivo.
Para ele, a China não cresceu por depender de capitais externos, mas por manter superávits em conta corrente, selecionar investimentos estrangeiros de interesse estratégico e preservar sua capacidade nacional de decisão.
“A China é desenvolvimentista”, afirmou.
Uma aula sobre desenvolvimento
Ao longo da entrevista, Bresser-Pereira defendeu que o Brasil precisa recuperar uma visão estratégica de longo prazo. Para ele, juros altos, câmbio valorizado, dependência externa e hegemonia rentista são obstáculos centrais à reconstrução industrial.
A crítica direta a Galípolo, chamado de “traidor”, sintetizou o tom duro da entrevista e a insatisfação do economista com a condução da política monetária brasileira.





