

Senadores Sergio Moro e Eduardo Girão
O senador Sergio Moro foi mais um político da direita a chegar ao Ceará e vomitar a pretensão de parte desse campo político de esnobar seu candidato natural e se entregar, por puro oportunismo político, a uma candidatura que representa tudo de ruim para muita gente. Para o bolsonarismo, porém, há algo ainda pior: o fato de ela carregar dentro de si uma oposição gigantesca ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a ponto de transformá-lo, juntamente com seus filhos, em um ladrão público confesso.
Esse foi o sentimento que a mulher do ex-presidente — hoje preso —, Michelle Bolsonaro, externou durante o lançamento da candidatura do senador Eduardo Girão, em Fortaleza.
Na semana passada, foi a vez de outro bolsonarista, ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, o ex-juiz e senador Sergio Moro, desaprovar essa aliança considerada desvairada com o ex-governador cearense. Agora, o palco utilizado para escamotear os direitistas de araque cearenses foi a cidade de Sobral, reduto eleitoral dos Ferreira Gomes.
Moro usou o palco de um evento político de Eduardo Girão (Novo) para atacar Ciro Gomes e reavivar, em pleno Ceará, a retórica que marcou sua trajetória na Operação Lava Jato. Diante de apoiadores, o senador afirmou que o ex-ministro teria dito que ele seria “recebido com bala” caso fosse à cidade e, em tom de provocação, declarou: “Pois bem, estou aqui”.
Moro disse não se intimidar diante de “valentões”, chamou Ciro de “bufão” e afirmou que o senador cearense seria o “único representante da direita” no estado.
O episódio resgata um confronto que remonta a 2017, quando Ciro Gomes, no auge da escalada da Lava Jato, reagiu duramente a ações conduzidas por Moro. A declaração usada agora pelo senador tem origem naquele período de radicalização política e volta a circular em um contexto muito diferente: não mais como reação a abusos atribuídos à operação, mas como peça de palanque em uma disputa antecipada de 2026.
POR QUE SOBRAL?

A escolha de Sobral deu ao movimento um peso simbólico evidente. A cidade é um dos principais redutos políticos dos Ferreira Gomes, e a presença de Moro ali, ao lado de Girão, funcionou como gesto calculado de enfrentamento. Ao trazer Moro para Sobral, o senador cearense tenta nacionalizar sua candidatura e colar sua imagem a uma direita que ainda busca se reorganizar no estado. O evento serviu, assim, para unir dois movimentos: de um lado, Girão em busca de musculatura eleitoral; de outro, Moro à procura de um novo palanque para reviver o personagem que o tornou conhecido no país.

A passagem de Moro por Sobral mostra que o ex-juiz segue apostando na mesma fórmula que marcou sua carreira pública: confronto direto, memória seletiva e uso político de episódios do passado. No Ceará, essa estratégia apareceu em estado bruto. Em vez de debate programático, o que se viu foi a tentativa de reencenar um embate antigo para produzir impacto eleitoral imediato.
No reduto dos Ferreira Gomes, Moro não foi apenas prestigiar Girão. Foi também tentar ressuscitar, no Nordeste e em ano pré-eleitoral, o personagem da Lava Jato que o país conhece bem.






