

Registrar os primeiros passos, a primeira palavra ou até a bagunça na hora da refeição é algo natural para os pais. O problema começa quando esses momentos íntimos são expostos de forma constante e pública nas redes sociais. O hábito, conhecido como “sharenting”, tem se tornado cada vez mais comum, mas especialistas em saúde, psicologia e direito digital alertam que a prática pode trazer consequências negativas para crianças e adolescentes.
A internet não esquece. Fotos e vídeos publicados hoje podem permanecer disponíveis por anos, mesmo depois de apagados. Isso significa que uma situação engraçada na infância pode se transformar em constrangimento na adolescência, fase marcada pela busca de identidade e maior necessidade de privacidade. Além disso, a pressão por curtidas e comentários pode criar expectativas irreais, afetando a autoestima e a saúde emocional dos jovens.
Do ponto de vista da segurança, o risco também é grande. Informações aparentemente inofensivas — como uniforme escolar, localização de passeios ou detalhes da rotina — podem facilitar a ação de criminosos. Especialistas lembram que redes de pedofilia e exploração de dados estão cada vez mais ativas e se alimentam justamente desse tipo de exposição. Por isso, a recomendação é nunca compartilhar dados que revelem onde a criança mora, estuda ou costuma frequentar.
Há também uma questão legal e ética. Embora os pais tenham autoridade sobre os filhos, os direitos da criança à privacidade e à proteção da imagem estão garantidos pela legislação brasileira. Isso significa que postar de forma exagerada pode, em casos extremos, até configurar violação de direitos. O ideal, reforçam os especialistas, é sempre refletir: essa postagem atende ao desejo da criança ou apenas à vontade dos pais de mostrar algo?
Muitas vezes, o “sharenting” começa de forma inocente e sem intenção de causar dano. No entanto, cabe aos pais avaliar os limites entre compartilhar memórias e expor os filhos. Manter perfis privados, limitar o acesso a pessoas próximas e evitar situações humilhantes ou íntimas demais são cuidados importantes. Mais do que isso, é essencial incluir os filhos na conversa conforme crescem, explicando os riscos e ouvindo sua opinião sobre o que pode ou não ser publicado.
Na prática, proteger a vida digital das crianças é uma extensão natural do cuidado diário. Assim como os pais não permitiriam que um filho atravessasse a rua sem olhar para os dois lados, também não deveriam colocá-lo em exposição irrestrita na internet. Educar para o mundo digital dá trabalho, mas especialistas garantem: não educar dá muito mais.






